O QUE “O CAPITAL” TRAZ À PSICANÁLISE SOCIAL 

Ce que « Le Capital » apporte à la psychanalyse sociale

Traduction : Maico Fernando Costa


Ce texte est celui de la conférence faite à l'Université Lomonosov à Moscou le 20 mai 2017 pour travailler les 150 ans du Capital.

​Il a été publié le 5 mai 2018 sur le webmagazine Marximum pour les 200 ans de la naissance de Marx afin de souligner l'importance de ce dernier pour un travail psychanalytique social novateur et nécessaire.

Il a été traduit par Maico Fernando Costa membre de l'APPS que nous remercions et saluons  à l'occasion de cette publication dans son combat pour l'émancipation révolutionnaire au Brésil


©Léon Spilliaert



Este é um texto derivado de uma palestra ministrada na Universidade Lomonosov em Moscou no dia 20 de Maio de 2017 para debater os 150 anos de “O Capital”. Foi publicado em 5 de Maio de 2018 na revista eletrônica “Marximum” para o 200o aniversário do nascimento de Marx, a fim de sublinhar a importância de Marx para um trabalho psicanalítico inovador e necessário. 


Cento e cinquenta anos após a sua publicação, gostaria de fazer uma proposta relativa à leitura de “O Capital” que poderia aparecer em um primeiro tempo, insólita. Mantenho que o principal trabalho de Marx é de importância fundamental e crucial para a psicanálise. Indo mais longe, mantenho que Das Kapital é o ponto de base daquilo que chamamos “Psicanálise Social”. 


A psicanálise social, tal como a defini, difere da psicanálise clássica ao tomar como seu objeto principal o social. O seu conceito fundamental é a transferência social (1). O campo de intervenção da psicanálise social é, evidentemente, a análise dos processos sociais e políticos mas, considerando o indivíduo como um ser social, seria um erro acreditar que a psicanálise individual não está no seu campo. 


Pelo contrário, trata-se de poder transformar as práticas e as teorias que atualmente reinam no campo da chamada psicanálise individual, a fim de responder às necessidades atuais. Esta referência ao social é baseada sobre o aporte fundamental de Marx: o ser humano é um ser social. O desafio é, portanto, fazer uma revolução no mundo psicanalítico atual. 


 




1. A importância da primeira seção do Livro I de “O Capital” para a psicanálise social 


A primeira seção do Livro I tem sem dúvida uma especificidade em “O Capital” e na obra de Marx: ela é difícil, e Marx indica claramente esta característica no seu Prefácio. Isto resultou durante muito tempo numa tendência para evitar a sua análise. Tem havido uma tendência filosófica para ir à Seção II que trata mais diretamente da exploração capitalista e dos seus mecanismos. Esta foi, por exemplo, a posição de Louis Althusser. 


Pelo contrário, penso que é muito importante ter em conta o desejo inicial de Marx de colocar esta seção “Mercadorias e Dinheiro” em primeiro lugar e indicar no seu Prefácio que só ela nos permite compreender o que é a economia. Acrescentaria que o seu estudo torna possível compreender como Marx na sua abordagem científica procedeu para analisar a economia, os processos sociais e ainda mais as relações sociais entre indivíduos. Há um método de Marx que é revelado na sua análise da realidade social. No seu prefácio escreve “A forma do valor realizada sob a forma de dinheiro é algo muito simples. No entanto, a mente humana há mais de dois mil anos procura em vão penetrar o seu segredo”. Trata-se de fato de perfurar um segredo, o segredo do modo de produção: produzir, consumir, trocar o que é produzido. Marx falará na Seção II sobre a transferência de valores, Wertübertragung, e isto está intimamente relacionado com o método de análise do segredo, e este termo de transferência não é “sem valor” em relação à questão psicanalítica. 


Mais importante para os nossos propósitos, esta Seção I diz respeito à análise fundamental da civilização, aquela em que vivemos hoje, a civilização capitalista. Neste contexto preciso, citarei o historiador da filosofia François Châtelet: “A Seção I é uma teoria da civilização (tal como elaborada por Rousseau e Freud)”, esta Seção I também lança “os fundamentos de uma teoria revolucionária da civilização” (2). 


Marx insiste efetivamente na forma de valor e na sua relação com o funcionamento da sociedade, o funcionamento econômico e as relações sociais, as relações entre os seres humanos. Nesta primeira seção, muitos pontos de análise são colocados numa posição de homologia entre “relações de troca entre mercadorias” e “relações humanas”. Marx deixa isto claro numa nota de rodapé do parágrafo sobre o conteúdo da forma do valor relativo: “Em alguns aspectos, é o mesmo para o homem e para a mercadoria”. 


O objeto da análise de Marx nesta primeira parte de “O Capital” é claramente a análise das relações que os indivíduos tecem no social, as fontes que os tornam inteligíveis, e este é um 


elemento crucial a ter em conta hoje para uma psicanálise que não está envolvida na psicopatologia. 


2. Contribuições e aporias da psicanálise clássica 


Freud estabeleceu uma prática de encontros humanos específicos, instituindo, de acordo com François Châtelet, uma revolução nas relações sociais, uma nova relação entre teoria e prática. O seu instrumento consistia numa prática humana de “dizer no divã o que lhe vem à cabeça e associar livremente as palavras”. Esta prática foi nomeada por Freud, transferência, Übertragung. Este termo é frequentemente reduzido à questão do amor, amor de transferência, amor endereçado ao saber e à sua suposição. Insisto da minha prática que esta transferência é também uma transferência de palavras, de imagens e de sensações corporais que ocorrem no que a repetição de encontros produz: o amor e o ódio. Insisto neste ponto porque existe de fato no início uma análise freudiana que faz uma revolução em comparação com a abordagem psicológica ou psiquiátrica. O filósofo Georges Politzer sublinha-o na sua obra fundamental “Crítica dos Fundamentos da Psicologia” em 1928: a psicanálise freudiana traz uma nova inspiração, a do concreto. 


Politzer, que permanece atualmente o crítico inigualável da psicanálise freudiana, faz uma observação crucial nesta fase: só as abordagens clássicas podem dar sentido ao inconsciente. O inconsciente freudiano só pode fazer sentido a partir da psicologia clássica abstrata, tal é o obstáculo que alimenta a aporia freudiana. Lacan criticará o inconsciente das profundezas de Freud, metafísico, e dará uma definição materialista orientada para a questão da relação entre o saber e sua negação, o insabido. O inconsciente se torna um saber insabido. 


Lacan diz ter lido “O Capital” no metrô aos 20 anos de idade. Ele sublinhou o quanto a obra de Marx tinha antecipado Freud e ele próprio em diferentes questões: o sintoma, o fetichismo, o estádio do espelho, o valor. Ele utilizará o conceito de mais-valor para construir o seu conceito fundamental de mais-de-gozar, numa posição de homologia, disse ele. 


A importância de Lacan na psicanálise social é certa: ele coloca Marx no campo da psicanálise, ou seja, no campo da prática psicanalítica. Penso que Lacan continuará famoso por esta razão e nenhuma outra: por ter introduzido Marx! A razão da aporia de Jacques Lacan é simples: ele permanece numa abordagem filosófica da psicanálise, em transcendência, tal como Hegel permanece numa filosofia transcendental da História. Ele será hegeliano até ao fim do 


seu ensino e falha na sua elaboração, a inversão feita por Marx em relação a Hegel. Isto traz portanto a ele um limite e é necessário medir a periculosidade de se colocar como primado a transformação da vida dos seres humanos em conceitos. 


3. A importância do conceito de Wertübertagung 


Freud a partir da transferência, Übertragung, trabalha sobre a questão do que não queremos saber sobre o que faz a nossa vida psíquica funcionar. Marx a partir da transferência de valores Wertübertragung trabalha sobre a questão de não querermos saber disso que faz a nossa vida social funcionar. 


Esta homologia que proponho associa diretamente a prática psicanalítica à prática social. De modo algum acrescenta Marx à psicanálise ou Freud ao marxismo. Esta homologia não é Freud-Marxista. A psicanálise social enfatiza antes a base social na fundação da psicanálise, tomando como ponto de partida a proposta apresentada por Marx: o ser humano é um ser social. Este ser social está envolvido nas relações sociais e estas relações são analisadas de uma forma muito sútil na Seção I. 


Extraio do trabalho de Marx o fato de que quando ele fala da relação entre mercadorias, no quadro do modo de produção capitalista, ele também fala das relações entre os seres sociais. Sublinho que isto é feito com a ferramenta conceitual específica desta seção sobre a mercadoria: o conceito da forma-valor. Assim, quando evoca no capítulo sobre a forma-valor relativa que “Graças à relação de valor, a forma natural da mercadoria B torna-se assim a forma valor da mercadoria A, ou ainda, o corpo da mercadoria B torna-se o espelho do valor da mercadoria A”, ele especifica bem: “Em alguns aspectos, é o mesmo para o homem e para a mercadoria. Como não vem ao mundo munido de um espelho, nem da fórmula do Eu fichtiniano, o homem se olha primeiro no espelho de um outro homem” (3). 


Os exemplos abundam, tornando possível tornar as homologias aplicáveis à prática psicanalítica. Assim, na transferência de valores entre mercadorias A e B, Marx desliza para as relações humanas: “Por detrás da sua alma bem abotoada, o linho reconheceu o seu belo parente, a alma valor. O casaco, contudo, não pode representar um valor face ao linho, sem que o valor para este último tome a forma de um casaco ao mesmo tempo. Assim, o indivíduo A não pode relacionar-se com o indivíduo B como com uma Majestade, sem que a Majestade 


tome ao mesmo tempo para A a forma corpórea de B, e assim mudando a forma do seu rosto, do seu cabelo e muitas outras coisas, cada vez que se muda o bom pai do povo” (4). 


A contribuição de Marx é crucial para a prática psicanalítica individual e coletiva. A análise da relação entre mercadorias aplicada aos seres sociais diz respeito à relação de igualdade baseada na relação de valor e, portanto, nas diferenças sociais. A transferência psicanalítica diz respeito ao que engana, ao que está ocultado. A transferência de valor sobre um produto na lógica capitalista também envolve engano: o que engana, o que está oculto na relação de valor entre os seres humanos. Também aqui Marx é o precursor desta concepção de transferência que será desenvolvida por Lacan. 


4. O primado do valor de troca e as suas consequências na transferência de valores 


A relação lógica entre as mercadorias implica estudar as relações entre a troca e o valor. A troca implica o princípio da igualdade entre produtos, mesmo que estes produtos sejam produtos de diferentes trabalhos. A troca induz o valor. No capítulo “O caráter fetiche da mercadoria e o seu segredo” Marx multiplica as posições homólogas com a psicanálise. Fala de segredo, de fantasmagoria, de transformação. O que alimenta aquilo a que chamei de transferência social mas também a transferência psicanalítica é claramente descrito: o jogo de suposição e atribuição, a relação com o oculto e com o não querer saber, o enganoso, o desfrutador e o insabido. Vou simplesmente extrair esta frase: 


Não é portanto porque os produtos do seu trabalho só lhes valem a pena como envelopes materiais de um trabalho humano diferenciado que os homens estabelecem relações mútuas de valor entre as coisas. É o inverso. É colocando em troca os seus diversos produtos como iguais a título de valores que colocam os seus trabalhos diferentes como iguais entre si a título de trabalho humano. Eles não o sabem, mas eles o fazem praticamente. O valor, portanto, não traz escrito na testa o que ele é. Pelo contrário, o valor transforma qualquer produto do trabalho num hieróglifo social. Subsequentemente, os homens procuram decifrar o significado do hieróglifo social, penetrar o segredo do seu próprio produto social, porque a determinação dos objetos de uso como valores é a sua própria produção social, tal como a linguagem é (5). 


É portanto a análise desta relação entre a troca, o valor e a igualdade que diz respeito ao trabalho e, portanto, à relação de exploração, de homicídio, que se analisa o engano em que as 


relações humanas e a sua violência são produzidas. Trata-se de insistir sobre a parte seguinte da frase precedentemente citada para encontrar uma chave de interpretação: 


“É colocando na troca seus diversos produtos como iguais a título de valores que eles postulam os seus trabalhos diferentes como iguais entre si e a título de trabalho humano. Eles não o sabem, mas eles o fazem praticamente”. É a relação de troca e de igualdade através do valor e a sua relação que produz o hieróglifo social e a relação com o trabalho de interpretação. A forma de valor tem um papel crucial nesta lógica. Ponto revolucionário para a questão psicanalítica: o inconsciente, o não-saber está do lado do fazer: “Eles não o sabem mas eles o fazem praticamente”. 


O inconsciente está do lado do que fazemos, produzimos na vida social, e, o trabalho psicanalítico, por sua vez, deve começar desse dado. Marx parte assim do concreto do gozo nas relações sociais, do que elas produzem e dos seus efeitos nas relações entre seres humanos. Ele dá a orientação crucial para analisar transferências singulares no que estabelece a relação de troca e igualdade, da qual se pode tirar uma lição revolucionária na prática da interpretação. 


5. As consequências da contribuição de Marx para a psicanálise social 


Marx na primeira seção de “O Capital” fornece assim à análise dos fatos sociais, através da forma valor, uma contribuição decisiva para a teoria e a prática da psicanálise. O que acabamos de salientar é a forma lógica da matéria em jogo na lógica da Wertübertragung. 


Marx estabelece um processo de objetivação do fato social. A transferência psicanalítica é um fato social. Ao trabalhar as relações entre troca, igualdade, trabalho, valor e forma, conseguimos separar a objetificação social do fantasmagórico em que o fenômeno religioso está alojado. Este é um ponto de referência essencial na prática psicanalítica. É também uma bússola importante para lançar luz sobre o fenômeno religioso na prática psicanalítica clássica e assim modificar esta última. 


Com o conceito de transferência de valores, de formas valores, é possível propor uma análise das formas de valor contidas nas palavras, nas imagens e nas sensações corporais nos seres sociais. Isto pode ser aplicado tanto no coletivo como no individual. A partir do trabalho realizado pelo filósofo marxista Georges Politzer sobre o nazismo, pude analisar o engano comportado pelos valores do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial e o seu funcionamento: valor “sangue” contra valor “ouro”. 


Também fui capaz de fornecer uma lógica para o funcionamento do fenômeno transidentitário. Ao substituir “casaco” por “casaco de mulher” e “linho” por “pele” no texto de Marx já citado em “O Capital”, obtemos a lógica do fenômeno transidentitário: “O casaco, contudo, não pode representar qualquer valor face ao linho, sem que o valor para esta última tome ao mesmo tempo a forma de um casaco” (6), transforma-se em “O casaco de mulher, contudo, não pode representar qualquer valor face à pele, sem que o valor para esta última tome ao mesmo tempo a forma de um casaco de mulher” (7). 


Esta lógica torna possível explicar e tornar inteligível o fenômeno transidentitário em contraste com a psicanálise clássica que fala de doença mental num quadro muito retrógrado sobre este assunto e dificulta o tratamento de transformação hormonal-cirúrgica que empurra para a vida. 


Com “O Capital”, aparece portanto evidente o papel emancipatório de Marx. O que é ignorado por Lacan nas suas construções homólogas diz respeito a todas as consequências de tomar em consideração o assassinato do proletário no fundamento do mais-valor, bem como o conceito de sub-humano que lhe está ligado. Isto obstrui as perspectivas mais criativas e as mais libertadoras. 


As perspectivas de emancipação social são grandes com a psicanálise social, que constrói uma nova relação antropológica ao assassinato e que, contra o conceito de alienação mental, declara: “Não há doença mental mas sim um sofrimento do social no que é psíquico”, tomando em relação à questão do sofrimento humano a orientação dada por Marx nos seus manuscritos de 1844: “(...) entendido de uma forma humana, o sofrimento é um gozo que o homem tem de si próprio” (6). 


Dr. Hervé Hubert

Psiquiatra, Psicanalista Moscou, 20 de maio de 2017. 


(1) http://cocowikipedia.org/index.php?title=Transfert_social

(2) François Châtelet, Perfil de uma obra O Capital Marx, Hatier, Paris, 1975, p. 31 et 38 (3) Karl Marx, O Capital, PUF, Paris, 1993, p. 60

(4) idem, p. 57 


(5) idem, p. 84-85 (6) idem, p 59 


(7) Karl Marx, Os Manuscritos de 1844, Terceiro Manuscrito, Propriedade Privada e Comunismo, em Marx, O Mundo da Filosofia, Flammarion, Paris, 2008, p.119 


Tenho o prazer de acrescentar como anexo o argumento preliminar a esta conferência “O que ‘O Capital’ traz à psicanálise social”. Este texto foi traduzido para o russo por Maria Karzanova. 





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